Presente Ausente
Lurdi Blauth
   
 

A exposição Presente/Ausente de Neca Sparta apresenta um conjunto significativo de trabalhos, e que nos provocam uma série de indagações: o que nos diz uma obra de arte? Deveria nos dizer sobre o que não estamos vendo? Ou ela nos retira de um tempo e nos reinstala em outro? Por quais pensamentos somos conduzidos em relação ao presente / ausente? Ao observarmos estes trabalhos percebemos a incorporação da idéia de tempo, memória, perda, modulação, acúmulos, transitoriedade, registros e permanências através de diferentes meios, cujas matérias são transformadas simbolicamente pela artista.

As obras dessa exposição são oriundas de imagens de carneiras (gavetas mortuárias) fotografadas em cemitérios missioneiros, que foram desdobradas por diferentes meios e materialidades, como o pó de mármore, o cimento e a cinza - matérias constantes nos trabalhos de Neca Sparta. Ora vemos fragmentos de imagens que evocam a passagem do tempo e da memória de seres esquecidos, ora são massas que modulam objetos cinzentos com inscrições, ora são pinturas configuradas pela inserção de massas de papéis que expurgam cores, criando volumes em suas superfícies.

Em Gavetas da Memória - in absentia, as imagens foram transferidas sobre lonas, trazendo a tona as suas reflexões sobre o universo da memória coletiva, interrogando-nos, talvez, sobre a finitude e a perenidade da vida. Palimpsestos Interfaces do Tempo e da Memória - ad infinitum, é resultante de marcas e fragmentos de pó de mármore, cimento e cinza recolhidos pela frotagem; porém, a bi-dimensionalidade da imagem é interrompida com a sobreposição de inúmeras camadas (ad infinitum) de voile azul, cuja materialidade evoca poeticamente a espacialidade e a transcendência de uma memória individual e coletiva.

As Carneiras são constituídas por 49 módulos, as quais simbolicamente remetem às imagens presentes em in absentia. Nesses trabalhos a artista utiliza o papel machê, pó de mármore, cimento e cinza, cujas cores dos materiais utilizados são mantidas, bem como são realizadas interferências de alguns materiais criando marcas, gerando densidades nas suas superfícies.

As palavras saudade, devir, presente e ausente surgem gravadas nas superfícies de Corpo Ausente. Em alguns módulos essas imagens/palavras são quase apagadas, evocando a perda de algo... de uma memória, talvez... remetendo a idéia de permanência e transitoriedade e reencontrada entre os objetos de madeira coletados/encontrados pela artista.

Entre as possibilidades e as impossibilidades nos deparamos com os Livros de Ausência, na cor preta e totalmente lacrados como se guardassem algo precioso. Já as Pinturas Negras, são acrescidas de camadas de voile que formam volumes leves e ao mesmo tempo densos e fechados, incorporando objetos e letras que evocam novas interlocuções. Por outro lado, em Outras Pinturas, as imagens são duplicadas quase por acaso, gerando um certo rebatimento de formas e cores dos próprios materiais, através da colagem de papéis, pó de mármore e cimento. Nessas obras, a idéia do duplo nos reenvia metaforicamente ao reencontro do Outro - entre os cinzas das cinzas.

Podemos dizer que, a obra poética de Neca Sparta é permeada por uma linha invisível que evoca constantes indagações que nos convidam a refletir sobre o Presente/Ausente, isto é, o lado esquecido do mundo. Nessas articulações oscilantes e perturbadoras, mais ou menos conscientes, Neca Sparta atualiza o passado e o futuro, tornando visíveis formas, seres e imagens não percebidas que povoam o mundo, que nos afetam e nos fazem devir.

   
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