Neca Sparta
           
   
  O rio, a árvore, o livro, a letra
Ana Flávia Baldissero
   
 

 

“Quando a memória, esta guardiã de tudo, avisa o corpo que já é outro abril, outro outono, outra manhã, outra chuva, a consciência do tempo começa a doer(...). Estamos condenados a amar o que já foi, mas não por passadismo, mas por que essa é a substância de que somos feitos. (...)

(Maria Rita Kehl, Por que escrevo)

 

 

O rio:

Localizado na bacia do rio Ijuí, o Itaquarinchim é um arroio que banha a cidade de Santo Ângelo, geografia que foi determinante para o desenvolvimento do povoado desde o tempo das missões. Um cronista local chega a afirmar que o arroio foi, para o povo de Santo Ângelo, o que o Nilo foi para o Egito na antiguidade. Com o crescimento da urbe, o Itaquarinchim foi perdendo a transparência e hoje só é notícia em função da poluição. Ao longo das suas margens se instalaram indústrias e brotaram bairros, gerando lixo e esgoto. No entanto, o Itaquarinchim resiste. A luta pela recuperação das suas águas, é alimentada tanto pelos conhecimentos que a ecologia e a consciência ambiental trouxerem, mas também pela memória do que este rio foi para quem cresceu às suas margens, sob a sombra das suas árvores, em tempos mais delicados. O rio para que volta-se Neca Sparta é ao mesmo tempo o outrora límpido arroio da cidade de seus primeiros anos, mas também, e essencialmente, um rio mítico, símbolo de uma origem impossível e atemporal. É nesta água onde mora a infância, manancial de sensações sem palavras, neste fluxo de lembranças escorridas, fonte da luz, da sombra e da vida, onde agora ela vem pescar. 

*

 

“(..)Não te banharás duas vezes no mesmo rio. Tudo passa.” proclamou o sábio pré-socrático Heráclito.  A afirmação da natureza mutante da realidade está no eixo central de debates contínuos ao longo da história da civilização.  Esta consciência constante do paradoxo imposto pela impermanência nada tem de banal. Para Neca Sparta, é uma interrogação central, que o trabalho registra na dialética de seus livros, que ora se encerram por completo, ora se abrem à uma incompletude sem fim.

A árvore:

Sonhar a semente - Tornar-se árvore -Inventar a raiz

Ela encontrou um pedaço de chão macio, uma matéria protetora onde plantar a árvore. Trabalhando neste solo estratificado - são leitos e peles, camadas brandas de transparência -  as mãos de hoje modelam o tempo que foi.  Com a linha na agulha, em movimentos lentos, a palavra cria raiz em livros de rolo -  livros-rio. “Modelar o tempo reconforta.  E se o gesto não vai mudar o curso do rio, ele alenta. Escrevo com a linha. A linha é meu passaporte para este outro tempo, ferramenta de reconexão. Não preciso ter certeza dos acontecimentos, basta buscar e sentir o vácuo do que não pode mais ser(...)” * Assim, o gesto a que se entrega é mediador de uma saída para o peso da dor do tempo, peso que conforma e habita o corpo que lembra. Na escrita da memória, uma passagem para a vida. Costurar fere e cura. A escrita, cicatriz.

 

 

O livro:

“(...)assim o esquecido nos parece pesado por causa de toda a vida vivida que nos reserva, Talvez o que o faça tão carregado e prenhe não seja outra coisa que o vestígio de hábitos perdidos, nos quais já não nos poderíamos encontrar. Talvez seja a mistura com a poeira de nossas moradas demolidas o segredo que o faz sobreviver.”
(Walter Benjamin, O Jogo das Letras, em Rua de Mão Única)

Há livros de muitas letras que guardam histórias e feitos, e fatos e sabedorias, em bibliotecas infinitas estendidas no tempo do homem escrevedor.  Na vertigem desta multidão de símbolos impressos, há livros que podem respirar.  A biblioteca particular inventada por Neca Sparta possui livros que respiram pesado e lento, quase inaudível e outros que ressonam, farfalham, suspiram. Há livros de salvação, há livros de danação.  Há livros que acabam com a história, e há livros para a história não acabar. Para gerar cada um deles, relacionou-se devagar e cuidadosamente com cada um dos seus materiais, buscou neles a direção, o sentido e o oxigênio. Mesmo quando o caso era o cimento, mesmo quando travava batalha com todos os nomes e bíblias mortas.

 

A letra:

A letra P (pê) é a décima sexta letra do alfabeto português e é também a décima segunda consoante. É utilizada em 2,52% das palavras portuguesas. Já a letra A é a primeira vogal do português e está presente em 14,63% das palavras em nosso vocabulário, sendo o mais usada. As letras “P”, “A” assim como o “E”, são as únicas inscrições legíveis nos livros mudos de Neca Sparta. Este alfabeto restrito é parte de um código privado, que esconde ainda outras camadas de escrita e cancelamento, que pouco interessa revelar. O que interessa é que as letras estejam assim, cruas, não mais do que símbolos de fonemas isolados, unidades mínimas de linguagem, vazias de conteúdo. Diferentemente da escrita feita com a linha de costura nos livros macios- os livros-rio - estas letras não estão aqui para ser lidas, mas somente para apontar na direção do que não podem dizer.  
Pois a quem trabalha com a memória, cabe registrar a dimensão indizível do tempo.
Pois a quem trabalha com o tempo, cabe respeitar a dimensão corpórea da ausência.

*

  * Neca Sparta, em depoimento sobre seu trabalho (fevereiro de 2013).
   
   
   
  Volta