Subversões do tempo
Ana Flávia Baldissero
   
 

Para onde vão as fotografias dos álbuns de família depois que ninguém mais, entre os vivos, tem vínculos com as pessoas retratadas? Que caminhos percorrem estas e tantas outras imagens da vida privada depois que o tempo destes afetos completa seu ciclo?

Subversões do Tempo faz parte de um projeto em andamento desencadeado pela apropriação de imagens descartadas, adquiridas pela artista em visitas a antiquários e feiras de antiguidades de Porto Alegre e do interior do Rio Grande do Sul.

Esta coleção de fotografias antigas reúne retratos de pessoas que, não sendo mais reconhecidas pelos seus próprios familiares de gerações mais recentes, ou pela descontinuidade no desenvolvimento de segmentos de uma família, tornam-se órfãs de suas memórias íntimas. No mercado de antiguidades, passam a categoria de mercadoria para colecionador constituindo-se em mais uma das materialidades sobre a qual pode se constituir a memória coletiva de uma época.

Neste trânsito das imagens entre a dimensão particular e a coletiva, Neca Sparta encontra sua porta de entrada, seu espelho de ver o tempo. Neste momento em que ocorre a quebra na cadeia do pertencimento simbólico destes personagens enquanto sujeitos com nome e história própria, a artista encontra uma oportunidade para desdobrar questões com as quais vem trabalhando já há alguns anos: perda, ausência e abandono, associados ao imaginário da morte, temas que a acompanham desde 2005.

Após o recolhimento das imagens, inicia-se um cuidadoso processo de observação: são analisados os agrupamentos, os rituais e hábitos, as poses e os gestos de cada personagem, os jogos de olhares e corpos, os cenários, vestimentas e adereços, objetos e mobiliários coadjuvantes da cena. Desta observação partem escolhas que resultam quase sempre em intervenções mínimas. Construídos de um modo simples, sem preciosismo, os pequenos bordados são feitos diretamente nas fotografias. Em um primeiro momento as imagens são furadas com uma agulha, reproduzindo uma técnica antiga de bordado sobre o papel; posteriormente, áreas inteiras da imagem são preenchidas com a linha, ou então, a linha opera como um desenho pontual, unindo e tensionando encontros, enfatizando enlaces, cancelando olhares e presenças.

“Meu foco de interesse nessas imagens é dar- lhes uma sobrevida” declara Neca Sparta, que usa suas intervenções como estratégias para evocar narrativas abertas no imaginário coletivo. “Manipulo-as para que possam oferecer-se de uma forma diferente ao olhar (...) A intenção é criar uma atmosfera que sugira uma situação a ser decifrada (...) Para decidir quais papéis os personagens terão na história, analiso cuidadosamente as imagens antes de cada intervenção, buscando perceber possibilidades de libertá-las para a nova leitura.”

Inventar uma nova entrada para estas imagens, no entanto, não provém ou resulta em pura nostalgia. Não há evocação do passado que não constitua também, um pensamento sobre o presente. Os olhos anônimos destas crianças, jovens, mulheres, homens e velhos, nos olham e nos pensam. Vertendo a consciência do tempo em sentido inverso ao seu inevitável escoar, desvela-se, no trabalho da artista, uma reflexão sobre a tragicidade desta “segunda morte”, aquela que acontece quando uma presença se apaga na memória do outro. Nosso maior desafio é debruçar-nos sobre a presença constante desta ausência simbólica, que como na fotografia pensativa de Roland Barthes¹ - é aquela que subverte quando se pensa.

   
  Ana Flávia Baldissero
  ¹BARTHES, Roland. A Câmara Clara. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1984.
   
   
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